Montanhistas dizem que desaparecimento de jovem em trilha expõe falhas na gestão do Pico Paraná; Estado promete reforçar sinalização
Montanhista aponta problemas na sinalização do Pico Paraná O Governo do Estado do Paraná anunciou nesta quarta-feira (7) que pretende reforçar a sinalizaç...
Montanhista aponta problemas na sinalização do Pico Paraná O Governo do Estado do Paraná anunciou nesta quarta-feira (7) que pretende reforçar a sinalização do Parque Estadual Pico Paraná, após um jovem de 19 anos passar cinco dias perdido na montanha. Relembre o caso abaixo. Segundo o Instituto Água e Terra (IAT), órgão responsável pela gestão ambiental no estado, o complexo que leva ao Pico "conta com trilhas sinalizadas, que serão reforçadas nos próximos dias, além de um plano de uso público que tem na segurança um dos principais pontos." Em nota enviada à RPC, afiliada da TV Globo no Paraná, o IAT destacou também que o planejamento da gestão do parque inclui "parceria com associações especializadas como a Federação Paranaense de Montanhismo (Fepam) e o Corpo de Socorro em Montanha (Cosmo), que ajudam na educação ambiental, conscientização e resgate de montanhistas". ✅ Siga o canal do g1 PR no WhatsApp Também na quarta-feira, a Federação Paranaense de Montanhismo divulgou uma nota pública, na qual critica o que chamou de "descaso com os parques de montanha do Paraná" e cobrando mais diálogo com o órgão. Segundo a nota, a Federação mantém há mais de cinco anos um Termo de Cooperação Técnica com o IAT, para dar apoio ao órgão realizando voluntariamente mutirões e também no controle de acessos, combate a incêndios florestais e doações de equipamentos. "O descaso do IAT com os parques de montanha e com o trabalho voluntário se tornou inaceitável, o órgão gestor toma decisões unilateralmente, estas decisões são tomadas por pessoas com pouquíssima experiência em gestão de UC [Unidades de Conservação] e menos ainda em montanhismo, pouco se importando com a opinião de outras instituições. O reflexo desta má gestão vem se acentuando nos últimos anos com o aumento nos casos de pessoas perdidas, vandalismo, degradação das trilhas e uso inadequado das áreas." Sinalização A cobrança por melhor sinalização no parque se intensificou após o desaparecimento de Roberto Farias Tomaz, encontrado com vida depois de passar cinco dias perdido na mata. Ele andou cerca de 20 quilômetros até chegar a uma fazenda na localidade de Cacatu, em Antonina, onde pediu um celular emprestado, ligou para a irmã e comunicou que estava vivo. Em entrevista à RPC, ainda no hospital, Roberto contou que se perdeu da trilha ao se confundir com a sinalização. "Eu encontrei uma encruzilhada onde tinha direita e esquerda. A parte da esquerda estava sinalizada com uma embalagem de garrafa e a parte da direita não. Aí eu fui pela parte que estava sinalizada. Descendo ali, eu comecei a escorregar pela ribanceira. Eu tentei voltar pra cima, não consegui porque estava muito liso por conta da cachoeira e da água", lembrou Roberto. O montanhista Wiliam Domingues, que tem experiência na subida do Pico Paraná e outras montanhas da região, explica que as garrafas mencionadas por Roberto são um estoque de água mantido para combate a incêndios florestais. "Realmente falta um manejo correto por parte do parque, recentemente foram trocadas algumas placas, mas existem muitas trilhas secundárias que as pessoas podem se confundir e se perder. [A queda de Roberto] foi no mesmo local em que outra pessoa se perdeu em 2022: errou a trilha descendo da mesma forma. Tinha uma faixa simples [no local], mas as pessoas acabam arrancando", conta Wiliam. Segundo o montanhista, a região tem pouca sinalização, com algumas placas que apontam a direção dos diferentes morros. "Nessas bifurcações há placas, mas ao longo da trilha a gente não consegue ver mais nenhum tipo de sinalização. Apesar de ser uma trilha que a gente chama de 'single track', que é uma trilha única, a gente não tem sinalizações recorrentes. Então, seria ideal a gente ter uma sinalização mais recorrente, porque é uma trilha longa", conclui. Por se tratar de uma trilha de dificuldade alta, Wiliam sugere um modelo de sinalização adotado em outros parques pelo Brasil, com a colocação de fitas reflexivas a cada 100 ou 300 metros do caminho. Segundo Rafael Andreguetto, diretor do Patrimônio Natural do IAT, o órgão está implantando a sinalização nas Unidades de Conservação e investindo em infraestrutura. Apesar disso, ele aponta o vandalismo e a extensão da cobertura da gestão como pontos de dificuldade para o órgão. "Não tem como colocar sinalização em todas as áreas. Claro que precisa ser melhorado, Mas, ao mesmo tempo, nós temos de forma recorrente o vandalismo. O Instituto Água e Terra tem promovido a implantação de sinalização, com investimentos perto de R$ 50 milhões em infraestrutura em unidades de conservação. São 74 unidades de conservação no estado e são quase 40 unidades que têm visitação e que demandam dessa dessa infraestrutura recorrente", detalha. LEIA MAIS: 'Se eu pudesse voltar no tempo, eu não tinha deixado ele', diz amiga que subiu montanha com Roberto Vídeo mostra primeira conversa dele com a família O que é o Pico Paraná Veja momento em que familiares descobrem que ele está vivo Jovem diz que pretende conversar com amiga que o deixou para trás durante a trilha Mapa mostra trecho percorrido por Roberto IAT reforça importância das medidas de segurança IAT diz que vai reforçar sinalização no Pico Paraná Após o episódio envolvendo Roberto, o Instituto Água e Terra (IAT) reforçou a importância de seguir medidas de segurança ao fazer trilhas e visitar parques estaduais. Entre elas, o preenchimento do cadastro de visitantes, aplicado de forma obrigatória na entrada dos locais pelo órgão, que gere as Unidades de Conservação (UCs) paranaenses. Conforme o IAT, Roberto e a amiga acessaram o local por uma entrada secundária, quando o parque estava fechado, sem o preenchimento do cadastro obrigatório. "O cadastro obriga que os visitantes se dirijam presencialmente às bases do Instituto localizadas nas entradas dos parques e forneçam uma série de informações aos funcionários do órgão ambiental, incluindo dados pessoais, telefone de contato, contatos de emergência e horário de início do passeio. Depois, na saída do local, os visitantes precisam retornar à base para 'fechar' a ficha, concluindo assim o processo", detalha o IAT. O não cumprimento da medida pode dificultar ações de resposta em casos de emergência, além de punições aos visitantes que desrespeitam as regras. Um decreto federal determina que adotar condutas em desacordo com os regulamentos e orientações da UC pode resultar em multas que vão de R$ 500 a R$ 10 mil. No caso de Unidades de Conservação montanhosas, como o Parque Estadual Pico Paraná, o cadastro é ainda mais importante, por conta do risco maior. Nestes locais, os visitantes recebem uma série de orientações no momento do cadastro por meio de um termo de ciência de risco. No Parque Estadual Pico Paraná, por exemplo, os trilheiros precisam fornecer informações como contato de emergência, dados relacionados à saúde e preparo físico, se têm experiência em ambientes montanhosos, além da indicação de equipamentos de segurança, como lanternas, apitos e pilhas. Para quem não possui experiência ou não conhece o parque, também é recomendada a contratação de guias ou condutores especializados, ou a realização das trilhas junto de alguém que conheça o local e já tenha feito o trecho anteriormente. Os funcionários do IAT fornecem também todas as instruções necessárias para entrar no parque, como estar com vestimentas adequadas, água e alimentação suficientes, e recomendações sobre não entrar sozinho na unidade, uma vez que o indicado é um grupo de ao menos três pessoas. Pico Paraná. Denis Ferreira Netto/SEDEST Mais de 400 pessoas envolvidas nas buscas Câmera térmica, drones, rapel e voluntários: buscas por jovem que desapareceu em montanha No período de buscas, foram mais de 100 bombeiros e 300 voluntários mobilizados, com recursos como câmeras térmicas, drones e rapel. Roberto conta que, no primeiro dia perdido, ouviu um helicóptero e soube que procuravam por ele, mas depois, sem sinais, achou que haviam desistido. "No terceiro dia eu falei: 'Pô, eles podem ter cancelado as buscas, mas Deus está comigo e eu vou seguir esse destino aqui, esse caminho que ele me deu, o caminho das pedras'", afirmou. Enquanto andava sozinho pela mata, chegou a pensar que jamais seria encontrado. "Eu pensei que era o fim, que eu já tinha talvez morrido. Alucinei em um momento assim. Mas eu pedi forças para Deus. Pedi forças para minha mãe, pensei em toda a minha família. Eu falei: 'Pô, eu quero chegar em casa bem e saudável. Só peço por proteção para isso'", relembrou Roberto. 'Pensei que era o fim', disse jovem O jovem também agradeceu a todos os profissionais e voluntários que se reuniram para resgatá-lo. "Só tenho a agradecer a todos que subiram, quem fez as orações, quem sentiu essa emoção junto com a minha família, que também estava por lá. Eu só tenho a agradecer muito a Deus, também minha mãe, minha principal guia, e a todos, de coração mesmo. Muito obrigado quem estava por lá", disse. LEIA TAMBÉM: Crime filmado: 'Imaginei que fosse um assalto', diz PM de folga que ajudou a prender autor de assassinato em academia Guerra: Paranaense na Ucrânia pediu ajuda à Embaixada para retornar ao Brasil antes de morrer em combate, diz família Estradas: Vítimas de van atingida por caminhão roubado no Paraná voltavam de culto em São Paulo Desaparecimento Roberto iniciou a trilha no dia 31 de dezembro, acompanhado de uma amiga. Segundo relatos, ele se sentiu mal durante a subida. Após descansarem e encontrarem outros dois grupos no cume, a dupla iniciou a descida com um dos grupos por volta das 6h30. Em um ponto anterior ao acampamento, o rapaz se separou do grupo. Momentos depois, conforme os bombeiros, o segundo grupo iniciou a descida, passou pelo ponto onde a vítima tinha ficado, mas não encontrou com ele. Roberto posou para foto junto com equipe médica do Hospital Municipal de Antonina. Sesa-PR O analista jurídico Fabio Sieg Martins estava em um dos grupos de montanhistas que encontrou Roberto e a amiga na trilha. Ele conta que acionou os bombeiros ao chegar ao acampamento que fica na base do morro e perceber que o rapaz não tinha mais sido visto. "Quando a gente chegou no acampamento A1, venceu o 'grampos' e tudo mais, tava a menina na barraca. Aí eu pergunto para ela: 'Cadê o Roberto?' e ela não sabia do Roberto. Aí bateu o desespero, eu falei 'o guri deve ter se desorientado lá no [acampamento] A2, tá perdido lá em cima. [...] Aí nós voltamos. No primeiro ponto que dá sinal de celular, eu faço uma ligação para o Corpo de Bombeiros e situo o bombeiro da posição e das referências que nós tínhamos ali", conta Martins. No sábado (3), a Polícia Civil passou a investigar o desaparecimento após a abertura de um Boletim de Ocorrência pela família do rapaz. O delegado Glaison Lima Rodrigues colheu depoimento da jovem que acompanhava Roberto na trilha, além de outros montanhistas que o encontraram no caminho e familiares dele. Na ocasião, a polícia afirmou que não havia indício de crime e o caso era tratado como desaparecimento. Depois que Roberto encontrou ajuda, uma equipe do Corpo de Bombeiros se deslocou até o local onde o jovem estava e o levou para o hospital de Antonina, onde ele fez exames médicos e passou por procedimentos para reidratação. Por responder bem ao tratamento, Roberto recebeu alta hospitalar na segunda-feira (6) e vai continuar a recuperação em casa, conforme a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa). 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